otaku
A palavra otaku em japonês significa, originalmente, casa, mas é um
termo impessoal, super polido e cerimonioso para se referir a
morada de alguém. Ela foi usada no Japão pela primeira vez em 1983,
por um jovem pesquisador chamado Akio Nakamori para designar um
fenômeno que atingia a juventude japonesa, destacando o
distanciamento do jovem de lá da sociedade em que vivem. Ou seja,
aquele cara não adaptado ao meio social, que prefere ficar em casa
curtindo seus videogames, desenhos animados, mangás,
brinquedos.
A geração de jovens criados após 1965 é a primeira que não precisa
preocupar-se com as seqüelas deixadas pela guerra. Assim, para
estas crianças, a palavra restrição não tem mais nenhum
significado. Os otaku cresceram nesta época de prosperidade
econômica, de descoberta do consumismo, onde tudo pode ser
comprado. No entanto, sobrou nesta nova geração a mesma apologia ao
esforço individual pelo bem coletivo que faz com que uma pessoa
seja obrigada a abrir mão de seus sonhos para fazer aquilo que a
sociedade quer que ela faça. Assim, abafados pelo meio social, os
jovens escapam para o mundo virtual e são bons candidatos a virarem
otakus, pessoas que preferem “ficar em casa” a sair e
encarar a realidade de frente.
s otaku são uma resposta inconsciente dos jovens japoneses à um mal
estar generalizado causado pela própria sociedade japonesa, que não
dá uma chance para eles extravasarem seus sonhos de juventude. Pelo
menos, no mundo virtual eles são os heróis e podem fazer o que
quiserem sem serem reprovados por ninguém.
Os otakus podem ser considerados a primeira geração multimídia
consumindo de forma voraz todas as novas tecnologias. Computadores
novinhos, celulares de última geração e videogames caríssimos fazem
parte desse cardápio. Para exemplificar, basta dizer que, no Japão,
99,2% das casas tem televisão, sendo que 5,1 % dos meninos com
menos de 12 anos, 12% com menos de 15 anos e 30%
com menos de 18 anos possuem seu próprio
aparelho dentro do quarto.
Preconceito
Quando andava com uma amiga japonesa dentro de uma convenção de
animes fui cutucado por ela em certo momento e ouvi: “você
sabe que aqui só tem otaku, né?”. E eu respondi: “sim,
qual o problema?”. Ela me disse: “eles são kimoi, eu
tenho medo deles”. Kimoi é uma palavra japonesa que significa
literalmente “nojento”. Com essa preocupação da minha
amiga eu resolvi que queria saber o motivo dessa repulsa dos
japoneses pelo conceito otaku. E eis que descobri a origem do
problema:
Em 1989, um jovem serial killer chamado Tsutomu Miyazaki foi preso
pela polícia. Ele havia esquartejado quatro estudantes japonesas
com requintes de crueldade. Em sua casa foi encontrada uma coleção
imensa de animes do gênero hentai (com conteúdo sexual). Por isso,
ele foi chamado pela mídia japonesa de “o assassino
otaku”. Foi esse termo que condenou os outros fãs hardcore da
indústria jovem japonesa a uma vida reclusa. Pessoas que apenas
curtiam seus hobbies foram associadas ao terrível assassino e
passaram a ser ainda mais discriminadas pela sociedade.
O Homem do Trem limpa a barra dos otaku
No entanto, atualmente, a mentalidade da sociedade japonesa vem
mudando em relação a isso. Nada ajudou mais a limpar a barra dessa
galera do que a exibição entre julho e setembro de 2005 de Densha
Otoko (O Homem do Trem), uma novela que mostra as desventuras de um
otaku típico na tentativa de conquistar uma garota do “mundo
real” que conheceu enquanto tentava ajudá-la a se livrar de
um bêbado chato dentro de um vagão de trem. Tímido e desarticulado,
o pobre Densha faz uso da internet para pedir conselhos amorosos e,
assim, ganhar o coração da garota. A história é real e foi retirada
de um fórum japonês chamado 2Channel. Transformado em romance,
virou filme e depois essa novela, que marcou mais de 30 pontos na
audiência.
A exibição de Densha Otoko fez com que os otaku passassem a
aparecer mais na mídia japonesa, já que a novela mostrava os fãs de
anime como pessoas honestas e cooperativas. Por isso, o mercado
faminto por novidades do Japão já está aproveitando o gancho para
criar muitos produtos relacionados a eles. Esse novo fenômeno está
sendo chamado de Moe Sangyou ("Indústria do Moe"). Moe é uma gíria
usada pelos otaku para se referirem a alguma coisa ou alguém que
eles gostem e desejem. Seria a versão espada do
“kawaii”, que as meninas gritam para dizer que alguma
coisa é “fofinha”.
Kaichiro Morikawa, autor do livro Learning From Akihabara: The
Birth of a Personapolis, tem uma explicação bacana: "imagine o
sentimento de quando você começa a gostar de uma pessoa pela
primeira vez. A paixão toma conta do seu corpo, da sua mente e do
seu coração. Isso não tem lógica, é inexplicável. O
“moe” é a palavra que explica um momento similar a
este". Piscou?
Otaku no Brasil
O otaku brasileiro é um reflexo de tudo o que você acabou de ler. É
lógico que nós não passamos por todos os problemas que os japoneses
tiveram que enfrentar. Os brasileiros foram seduzidos por um estilo
de entretenimento que hoje domina o mercado ocidental. Sabendo que
40% de tudo que é publicado no Japão são quadrinhos e que mais de
60 novas séries de animação são lançadas por ano, não sobraria
dúvida de que algo logo seria exportado para o Brasil.
Desde a década de 1980, muitos desenhos japoneses vieram para o
nosso país, mas foram os grandes sucessos dos últimos dez anos como
Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z e Pokémon que, acompanhados da
evolução rápida dos computadores e dos meios de comunicação como a
internet, resultaram na facilidade do contato dos fãs com esse tipo
de material. Hoje, qualquer fã com um computador plugado à rede
pode ter acesso há centenas de títulos em segundos, durante uma
pesquisa em um site de busca.
De qualquer maneira, os otaku no Japão tiveram uma história que
previu o futuro. Basta reparar que hoje você não precisa sair de
casa para encontrar os amigos, pagar contas, fazer compras...
Seguimos por um caminho onde logo nos depararemos com um mundo que
nos dará a opção de viver filtrado pelo virtual, sem sermos
incomodados por ninguém.
O objetos de adoração dos Otaku
Confira uma lista daquilo que os otakus, tanto aqui como no Japão,
adoram
Anime: hoje em dia muitos desenhos animados japoneses são lançados
no Brasil, mas o número não chega nem perto das mais de 60 séries
que são surgem no Japão todos os anos.
Mangá: no Brasil já foram publicadas mais 50 histórias em
quadrinhos e a tiragem mensal total é de, em média, quinhentos mil
exemplares. No Japão, uma revista semanal vende cerca de quatro
milhões de exemplares.
Cosplay: os fãs que se vestem de seus personagens preferidos são
mania no Japão e no Brasil. Por aqui, o hábito de vestir-se começou
na década de 1980, mas só estourou para valer mesmo em 2000.
Videogames: hobbie eterno dos otaku. O videogame transporta o
jogador para um mundo onde ele dita as regras.
Garage Kit : as estátuas de resina que precisam ser montadas e
pintadas cuidadosamente pelos fãs são mania no Japão. Por aqui elas
também existem, mas são consumidas numa escala infinitamente
menor.
Maid Café: são cafeterias no bairro de Akihabara onde garçonetes
vestidas de empregadas atendem de forma cordial e subserviente um
otaku babão, que geralmente vai para tomar um sorvete e ser chamado
de “goshujin-sama” (mestre). É uma forma ótima de
combater a timidez e falar com alguém. Ainda não apareceu por aqui,
mas a idéia desse estilo de restaurante já está sendo exportada
para países como Coréia do Sul e China.
J-Drama: as novelas japonesas se tornaram mania há pouco tempo e
fazem mais sucesso entre os otaku ocidentais do que os orientais.
Falam de temas muito diferentes que vão de histórias felizes a uma
aleijada a beira da morte ou os próprios otakus.
Aidoru: mania japonesa que vem da palavra inglesa idol (ídolo). O
idol system é um sistema que gera uma série de atraentes e jovens
estrelas (atrizes, cantoras, modelos, etc.) por ano, fazendo com
que as pessoas na mídia sejam cada vez mais descartáveis. Mesmo
assim, uma idol é um prato cheio para os Kamera Kozo, um tipo
diferente de Otaku tarado por Idol que compra uma câmera super
moderna e faz zilhões de cliques de sua Aidoru favorita. Quase
sempre perseguindo a garota onde quer que ela esteja.
J-Pop: música popular japonesa que já faz bastante sucesso também
no Brasil. Bandas com Larc’ En Ciel, Gackt, Asian Kung Fu
Generation. Jam Project e muitos outras tem seu lugar na coleção de
CDs dos fãs. Ouvir aquela trilha toda vez que se assiste a abertura
ou encerramento de um anime faz a gente querer comprar o CD ou
baixar a música num dos diversos meios oferecidos pela
internet.
Fansubber: ter um computador com internet hoje é o suficiente para
estar em contato com a programação completa de animes do Japão. Os
fansubber são grupos de fãs que legendam os desenhos japoneses e os
disponibilizam na rede mundial de computadores. É assim que muitas
séries japonesas acabam se tornando sucesso mesmo sem estarem
disponíveis oficialmente mundo a fora.
Manga Scanlation: versão alternativa dos Fansubber. O manga
scanlation são mangás escaneados e traduzidos por fãs que os
disponibiliza na internet, onde podem ser baixados de graça. Tanto
essa prática, quanto a dos fansubbers são ilegais porque ferem os
direitos autorais das respectivas obras, mas são tão comuns para os
fãs quanto falar “sugoi!” (“uau!”), ao ver
as últimas atualizações desses sites.
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